domingo, 12 de outubro de 2008

Adolescentes problemáticos e seus pais executivos


No último período letivo, o filho de um empresário veterano foi pego roubando o iPod de outro aluno e foi suspenso da elegante escola de Londres em que estava matriculado. Esta história de roubo é de grande interesse para cerca de uma dezena de pessoas. Para o empresário - que certamente deu uma bronca no garoto , para o rapaz, sua mãe, o diretor da escola, sua vítima e os colegas de classe que sentiram toda aquela excitação que surge quando alguém se mete em encrenca. Caso contrário, ninguém teria ligado.
Fiquei sabendo sobre o ocorrido na semana passada e também não dei muita atenção. Mesmo assim o caso me fez imaginar o que poderia ter acontecido- vamos apenas supor- se não tivesse envolvido o filho de um empresário e sim a doce filha mais velha de Barack Obama. Aí, muita gente teria se importado: na verdade poderia ter custado a seu pai uma derrota nas eleições presidenciais americanas.
Se você é um político, especialmente um americano, seus filhos são um perigo para você. As transgressões deles passam a ser suas, como Sarah Palin descobriu quando o mundo se arrepiou ao descobrir que sua filha adolescente está grávida de cinco meses. Felizmente para sua mãe, um noivado foi rapidamente arranjado e o desastre político foi evitado, mas passou perto.
Há uma lição óbvia aqui: a menos que você não tenha filhos, entrar para a política é uma má idéia. Até mesmo adolescentes comportados fazem sexo sem proteção, embebedam-se, usam drogas, tornam-se anoréxicos ou bulímicos e, se você tiver cinco filhos- como tem Sarah Palin-, as chances de um deles infligir danos colaterais a você em algum momento chegam perto de ser uma certeza.
Por outro lado, se você é um líder empresarial, seus filhos podem aprontar o quanto quiserem sem prejudicar sua carreira. Alguém poderia dizer que isso não é justo. Assim como os políticos, os líderes empresariais deveriam ser exemplos para as pessoas que eles comandam. Se não conseguem controlar alguns adolescentes em casa, porque eles deveriam liderar milhares de trabalhadores?
Há três coisas erradas com essa linha de pensamento. Manter os próprios filhos adolescentes sob controle o tempo todo pode ser mais difícil do que manter na linha uma companhia- ou um país. Os pais amorosos de adolescentes mal comportados são sempre motivo de pena, assim como dignos de culpa. E se os filhos de políticos e empresários saem mais da linha do que os outros, a culpa não é da fraca liderança dos pais, e sim de seus empregos, que geram muito dinheiro e fama, e os mantêm tempo demais no trabalho.
Os acionistas parecem ter uma postura bem definida sobre isso. Eles não são sentimentais em relação ao caráter (como os eleitores parecem ser). E do ponto de vista deles, se alguma concessão tiver que ser feita, é melhor que os filhos sejam negligenciados.
Os filhos de empresários precisam sair espetacularmente da linha para que alguém dê alguma atenção. Patty Hearst foi raptada e juntou-se a uma guerrilha, mas ela era especial. Paris Hilton também é especial- por ser a celebridade mais superestimada do mundo. Ela pode ir para a prisão por dirigir bêbada, mas eu duvido que as taxas de ocupação de quartos da rede hoteleira fundada por sua família sofram com seus escândalos.
Mesmo quando o filho execrado trabalha na mesma organização do pai, o dano é menor. O filho de Sandy Weill, ex-presidente do Citibank, deixou subitamente seu poderoso emprego no banco, poucos anos atrás, e se internou em uma clínica de reabilitação de drogados. Embora isso tenha circulado pela internet, a carreira de Weill pai seguiu em frente, triunfante. Em sua biografia, a história mal merece uma linha.
Em tese, danos podem ser provocados quando os valores adotados pelos filhos estão em desacordo com os dos pais, mas na prática ninguém liga muito por muito tempo. A rainha Elizabeth II (que é a chefe de um tipo de família de negócios) tem como sua principal marca a fisionomia impassível. Essa característica não esteve presente no divórcio terrivelmente emocional de seu filho mais velho. Mas isso prejudicou a rainha? Após um pequeno período em baixa, ela é hoje mais popular do que nunca.
Do mesmo modo, Eddie Izzard, o famoso comediante travesti, é filho de um contador heterossexual. As travessuras do filho parecem não ter prejudicado o pai- Harold Izzard acaba de ganhar um prêmio pelos "relevantes serviços prestados à profissão de auditor interno."
Consigo me lembrar de apenas uma pessoa do mundo dos negócios que tenha sido prejudicado pelo comportamento de um filho: Martin Lukes. Este ano, o diretor-presidente da a-b glöbâl foi considerado culpado pela passagem de informações sigilosas para seu filho corretor de valores e agora está na prisão, com a reputação aos pedaços.
O único dano rotineiro que um filho problemático pode infligir à carreira do pai é ser tão problemático que isso acaba distraindo o pai em seu trabalho. Fora isso, há uma probabilidade maior dos filhos ajudarem, do que atrapalharem. Para começar, eles são caros. É tão caro dar a eles escola até a faculdade que os pais precisam trabalhar duro por um período de tempo muito grande.
Segundo, os filhos proporcionam um mundo paralelo. Quando o trabalho fica insuportável, há os filhos para distrair. E quando os filhos se comportam de maneira odiosa e incontrolável, a paz e civilidade do escritório oferecem um refúgio maravilhoso.
Mas o maior serviço prestado pelos filhos aos seus ambiciosos pais é deixá-los desanimados. Os adolescentes dizem com freqüência aos pais que eles são um lixo. Se o pai é o presidente de uma empresa de ego inflado, este é um serviço inestimável, já que ninguém mais teria coragem de prestá-lo.


Lucy Kellaway é colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada quinzenalmente na editoria de Carreiras do Jornal Valor Econômico

Ninguém é insubstituível

Sala de reunião de uma multinacional, o CEO nervoso fala com sua equipe de gestores. Agita as mãos, mostra gráficos e olhando nos olhos de cada um, ameaça:
- Ninguém é insubstituível!
A frase parece ecoar nas paredes da sala de reunião em meio ao silêncio. Os gestores se entreolham, alguns abaixam a cabeça. Ninguém ousa falar nada.De repente um braço se levanta, e o CEO se prepara para triturar o atrevido:
- Alguma pergunta?
- Tenho sim. E o Beethoven?
- Como? - o CEO encara o gestor, confuso.
- O senhor disse que ninguém é insubstituível, e quem substitui o Beethoven?
Silêncio. Ouvi essa estória esses dias, contada por um profissional que conheço e achei muito pertinente falar sobre isso. Afinal, as empresas falam em descobrir talentos, reter talentos, mas no fundo continuam achando que os profissionais são peças dentro da organização, e que quando sai um é só encontrar outro para por no lugar.Quem substitui Beethoven? Tom Jobim? Ayrton Senna? Ghandi? Frank Sinatra? Dorival Caymmi? Garrincha? Michael Phelps? Santos Dumont? Monteiro Lobato? John Kennedy? Elvis Presley? Os Beatles? Jorge Amado? Paul Newman? Tiger Woods? Albert Einstein? Picasso? Todos esses talentos marcaram a História fazendo o que gostam e o que sabem fazer bem - ou seja - fizeram seu talento brilhar. E, portanto, são sim insubstituíveis.Cada ser humano tem sua contribuição a dar e seu talento direcionado para alguma coisa. Está na hora dos líderes das organizações reverem seus conceitos e começarem a pensar em como desenvolver o talento da sua equipe, focando no brilho de seus pontos fortes e não utilizando energia em reparar "seus gaps". Ninguém lembra e nem quer saber se Beethoven era surdo, se Picasso era instável, Caymmi preguiçoso, Kennedy egocêntrico, Elvis paranóico. O que queremos é sentir o prazer produzido pelas sinfonias, obras de arte, discursos memoráveis e melodias inesquecíveis, resultado de seus talentos. Cabe aos líderes de sua organização mudar o olhar sobre a equipe e voltar seus esforços em descobrir os pontos fortes de cada membro. Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso de seu projeto. Se você ainda está focado em "melhorar as fraquezas" de sua equipe, corre o risco de ser aquele tipo de líder que barraria Garrincha por ter as pernas tortas, Albert Einstein por ter notas baixas na escola, Beethoven por ser surdo e Gisele Bundchen por ter nariz grande. E na sua gestão, o mundo teria perdido todos esses talentos.
Celia Spangher

A executiva bem sucedida




Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal. Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas.Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:
- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
- No céu.
- No céu?...
- É.
- Tipo assim... o céu, CÉU...! Aquele com querubins voando e coisas do gênero?
- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.
Apesar das óbvias evidências nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva. Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa.
E foi aí que o interlocutor sugeriu:
- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
- É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim? (...)
- Pois não? A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro. Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:
- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e...
- Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
- Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo 'executiva'?
- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo. Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.
- Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando a toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.
- É mesmo?
- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?
- Ah, não sabemos.
- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.
- Que interessante...
- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.
- !!!...???...!!!...???...!!!
- Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Acionista... Ele existe, certo?
- Sobre todas as coisas.
- Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, me parece extremamente atrativo.
- Incrível!
- É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um Turnaround radical.
- Impressionante!
- Isso significa que podemos partir para a implementação?
- Não. Significa que você terá um futuro brilhante... se for trabalhar com o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente, como funciona o Inferno...

Max Gehringer
(Revista Exame)

Eu amo a vida, e você?

Falar é fácil....Difícil mesmo é sincronizar o que se diz, o que se pensa, o que se sente e o que se faz. Faça o teste: durante uma semana inteira, pergunte para todos aqueles que o cercam se eles amam ou não a vida. Pergunte para o lavador de carros, pergunte ao porteiro, pergunte ao chefe, pergunte ao garçom, enfim, vá perguntando para todos. Vocês verão que as respostas em suas pequenas variações, dará a certeza de que todos amam a vida. Então porque será que mesmo amando a vida, amando o fato de estarmos vivos, cometemos pequenos atentados contra ela diariamente? Vocês podem estar contrários a esta afirmação, mas vou logo explicando a minha percepção. Ao cruzar um semáforo que já estava amarelo, ao esquecer de tomar a medicação tão necessária à minha saúde, ao denegrir a imagem de um colega por meio de uma fofoca, ao ignorarmos as tristezas e decepções das pessoas que nos cercam, vamos cometendo pequenos atentados contra nós mesmos e contra os outros. Amar a nossa vida, significa amar a vida por inteiro, o que precisa ser entendido como a vida de todos aqueles que de alguma forma compartilham conosco a graça de estarmos vivos. Como anda o seu amor pela vida dos outros?